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Gripe A H1N1 – Uma reflexão

15 de agosto de 2009

A PULMÃO S.A. tem o prazer de publicar artigo de autoria do Professor da UFRJ Doutor Edimilson Migowski – MD, PhD,MSc a respeito da atual pandemia da Gripe influenza A/H1N1:

A pandemia de influenza A H1N1 chegou ao Brasil, o que era de se esperar, afinal é um vírus facilmente transmissível entre as pessoas.

Ainda na época que a pandemia era apenas uma ameaça, o Ministro da Saúde se apressou a declarar que o Brasil estava preparado, contrariando a lógica e o bom senso. Afinal se o poder público não consegue controlar a dengue, doença que não se transmite entre as pessoas, não exige medicamento especial e nem isolamento dos enfermos, por que acreditar que teriam competência para controlar a gripe?

A doença está aí, fazendo vítimas fatais, mais de três centenas de óbitos até a presente data – na Inglaterra, foram mais de 100 mil casos da nova gripe e menos de 30 óbitos! O medicamento está sob controle rigoroso do Ministério da Saúde, fazendo-me lembrar aquela pessoa que perdeu o juízo, viveu como miserável e guardou todo o seu dinheiro embaixo do colchão. Só que o tempo passou, as notas perderam o valor e ele ainda se julga preparado e milionário. O medicamento que o Ministério da Saúde tem é para ser utilizado, até porque perderá a validade e se tornará obsoleto. Esse é o momento, pessoas morrendo por falta do medicamento. De quem será a culpa? Que o Ministério Público compreenda as minhas palavras.

O Ministério da Saúde defende que só  receberá o medicamento quem for de grupo de elevado risco ou estiver grave e com menos de 48 horas de iniciado os sintomas. Ressalto que é improvável que as pessoas já  se apresentem graves com menos de dois dias. O medicamento inibe a replicação do vírus influenza diminuindo a sua transmissão, gravidade e letalidade e deve ser iniciado o quanto antes. Pobre dos médicos que agora deverão, sem qualquer treinamento, nas tendas de acolhimento, emergências precárias e sem condições de trabalho, decidir quem receberá ou não o medicamento e ser tratado de forma específica.

Mais uma vez o médico será responsabilizado por mortes evitáveis. Vários óbitos ocorreram em pessoas que não tinham nenhum fator de risco adicional e não estavam inicialmente graves. Pelas normas do Ministério da Saúde não receberam o medicamento específico e o médico que os atendeu deverá ser acusado de negligência por não ter prescrito o fármaco. Os médicos, mesmo aqueles que atendem em tendas, ao contrário de ciganos que “lêem mãos” e se dizem adivinhar o que está por vir, não tem como praticar “futurologia”.

Estamos no século XXI, porém aqueles que contraem a nova gripe, estão sendo tratados como no início do século passado.

Tem outras curiosidades que gostaria de dividir com o leitor, em documento oficial o Ministério da Saúde informa que as crianças com menos de dois anos de idade são de alto risco no caso de gripe, com maior possibilidade de complicar e evoluir para óbito. Ainda assim, o Brasil não seguiu os passos das autoridades sanitárias Norte-americanas (FDA), liberando, em caráter emergencial, a utilização do medicamento oseltamivir antes de um ano de idade. Aqui no Brasil a Agência Nacional de Vigilância Sanitária não nos autoriza esse uso. E tem mais: não é de hoje que todos sabem que as crianças com menos de 2 anos de idade, uma vez com gripe – qualquer tipo de gripe – têm mais chances de evoluir de forma grave, até mesmo pior do que as pessoas com idade acima dos 60 anos. Mesmo assim o governo não disponibiliza a vacina contra a gripe sazonal, apesar de as Sociedades Brasileiras de Pediatria (SBP) e de Imunizações (SBIm) recomendarem que toda criança com mais de 6 meses deva se vacinar. Não quero dizer com isso que a vacina contra a gripe comum proteja contra a influenza A H1N1 dessa pandemia, mas seria interessante a vacinação para evitar confusões quanto ao diagnóstico.

Ainda no que tange à vacinação contra a gripe, os grupos de risco e profissionais de saúde não são o foco da vacinação do Ministério da Saúde, basta ver as campanhas, sempre voltadas para os idosos, sem fazer qualquer menção aos outros grupos de alto risco e/ou elevada necessidade.

O fato da saúde pública não priorizar a vacinação dos profissionais de saúde é como se o exército enviasse os seus soldados para frente de batalha “com as mãos abanando” e somente depois de várias semanas enviasse o armamento adequado.

Sorte daqueles que fazem as normas, longe dos ambulatórios, desconhecendo o que é a dor e o sofrimento alheios. Isso só reforça uma frase que certo dia eu ouvi: “a dor mais suportável é a dor dos outros!”.

Professor Doutor Edimilson Migowski – MD, PhD, MSc

Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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